quarta-feira, 4 de março de 2009

Um pedaço escrito

por Keissy Carvelli


Pode gritar infâmias. Vai, pode chamar de puta essa menina estranha jogada na cama com olhos borrados da maquiagem da noite passada. Esbraveja meu nome pela janela e conta pro mundo inteiro todos os amores ditos no meu ouvido e diz o que você fez agora.
Pode me chamar de infantil, grosseira, grotesca, puta, ridícula, passional, hiperbólica. Grita bem alto. Eu quero ouvir tudo sair da tua boca. Todo o seu cansaço, toda a sua indisposição, o seu desamor eu quero ouvir de perto. Quero sentir o perfume da tua indiferença em silêncio, bem aqui, afogada nessa cama estúpida, com esses olhos estúpidos borrados, esse esmalte pela metade, e essa ressaca presa nos fios do meu cabelo.
Olha bem pra mim, meu amor. Diz todos os seus pensamentos rudes sobre mim, eu posso sentir você tremer os lábios desejando jogar todos eles na minha cara. Não, não, não. Você não faria isso, não é? Talvez você me queira no mês seguinte, talvez sinta a minha falta antes de dormir e não soaria bem me pedir pra voltar diante de tantos adjetivos empregados grosseiramente.
Pode me acusar das tuas loucuras, de traição, exagero, desapego. Me acuse de erros gramaticais, pronome oblíquo não inicia frase. Rasgue minhas cartas, apague meus poemas, minhas músicas. Diz com a tua frieza que não sou o que você quer, que sou estúpida, neurótica, ignorante.
Apague todos os meus indícios, e as tuas saudades. Esqueça das nossas manhãs e nossos risos; esqueça as mãos dadas timidamente e todos os minutos em que olhei pro teu rosto pra não esquecer na distância. Me chame de puta neurótica e esqueça nossas brigas e nosso sexo.
Não lembre mais do meu imperativo irritante, das minhas gírias, da minha voz, do meu suor. Esqueça qualquer coisa que te faça lembrar de mim. Pode esquecer também nossa única noite, nossa único filme não visto, nossos muito cigarros e as flores tão clichês que eu roubei dos canteiros da cidade.
Esqueça o amor-perfeito, o suco, e as esperas na porta do prédio onde você trabalha. Deixe passar os abraços fortes de despedidas, e os abraços fortes de reencontro. Não encoste mais em parede alguma para não sentir o meu corpo junto do teu e não feche os olhos, amor. Não feche os olhos para não me sentir segurar teu rosto e beijar tua boca.
Esqueça tudo, esqueça até meu nome, meu amor. Deixe, ao menos, essa parte pra mim. Deixe eu fazer o que quiser com esses fragmentos de coisa alguma; deixe eu me perder em poesias e pensamentos melancólicos pelo tempo que me for necessário. Deixe as saudades, as brigas, os beijos e afagos pra mim. Não pretendo ser rude, meu amor, mas eu quero até mesmo o meu egoísmo de volta. Deixe eu me querer de volta. O que é nosso eu já não posso mais querer.

4 comentários:

Juliana disse...

Esse texto se encaixa perfeitamente em mim. Cada palavrinha, tive que salvar pra mim!
Lindo, lindo, dez mil vezes lindo!
escreve mais, é tão bom chegar aqui e ter uma coisa nova!!!

botou para quebrar!

Sileide disse...

;~~ que coisa mais linda ;~~

D'angelo disse...

O que é nosso eu já não posso mais querer.
Veio bem a calhar.
Bjo moça.

Rafael disse...

eu sempre to por aqui lendo e tal, mais hoje nao pude deixar de comentar..

me identifiquei deeemais, é mais ou menos isso que to vivendo agora :/

enfim, mtoo bom o texto

, PARABÉNS!