segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Espere pela outra vez

por Keissy Carvelli


Essa coisa toda por dentro me sufoca. Quero sentir o céu inteiro nas manhãs e madrugadas deixando o meio dia, o meio termo para os corações cautelosos da cidade grande.
Esses meus exageros não são exageros inventados numa embriaguez efêmera, eu sou inteiro exagero. Tudo em mim grita, suplica, palpita, quando não grita sussurra tão intenso feito prazer insaciável, quando não suplica ataca, machuca, fere com tamanha precisão, precisa tanto do pulso acelerado.
Minhas paixões vão assim, enlouquecendo junto das minhas próprias loucuras. Minha paixão toma todo o mar visto de ano em ano como seu próprio limite inexistente. Prefere a indiferença ao limite. Vai parecendo doce, encantadora doçura tamanha, vai se mostrando excitante nos gemidos ao canto da nuca, exatamente onde o cheiro de pele é somente seu.
Depois, depois é amargo. Volta a ser doce a paixão, o amargo é apenas o amargo, como num dia ruim, numa solidão ruim, numa sobriedade medíocre.
É doce, docemente amargo, e, então, doce outra vez.


terça-feira, 17 de novembro de 2009

Pílula pro dia seguinte

por Keissy Carvelli


Eu quero que você me queira pra sempre. Porque quando eu te faço almoço na minha casa quarto-cozinha você sorri e diz que sou a melhor pessoa do mundo e eu nem sou. Nós duas sabemos que nossos sorrisos dão certo juntos, e quando você vem, e quando eu vou e quando estamos é como se o céu se enchesse de estrelas mesmo nos dias frios.
A distância traz uma saudade apertada, eu sei, você sabe, e quando a minha saudade não se suportar sozinha eu vou deixar uma lágrima escorrer e vou te ligar e você vai me ouvir. E quando a sua saudade for como a minha você me liga e eu vou, você sabe que eu vou.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Doce saudade de um doce amor

por Keissy Carvelli


Gosto de assistir à lua da janela do meu quarto cada vez mais ao centro do céu. Surgiu fraca, ainda escondida por trás do telhado e das paredes da casa ao lado, mas logo seu brilho forte se postou em frente à minha janela, fazendo-se perceber até mesmo pelo vidro espesso.
Vejo tantos detalhes da janela do meu quarto, falta-me o mar, é certo. Logo menos terei a lua, o céu, o mar, você, juntos sem que se faça necessária minha imaginação quase infantil.
Seu amor é assim, como a lua. Surgiu por trás de luzes artificiais, canções especiais, mas logo se postou em frente à minha janela, fazendo-se perceber até mesmo pelo vidro espesso.
É suave, doce o seu amor, não fere, não maltrata, não sufoca. Sereno, ainda que intenso o seu amor.
Gosto de assistir à lua da janela das nossas lembranças. É quando penso em silêncio em você. Deixo a saudade surgir discreta em todos os meus sentidos, é suave, é doce a minha saudade. Machuca, é certo, mas não maltrata, não faz doer o amor. Serena, ainda que intensa a minha saudade.
Doce saudade de um doce amor. É quando tranquila deito e espero nosso encontro chegar.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Há de ser

por Keissy Carvelli


Centenas de motivos me ocorrem para justificar, mas amor com explicações não pode ser amor. Pode ser que digam ser hipérbole do meu senso poético, extremismo do meu sentimentalismo exagerado, não importa. Há sempre algo a ser dito para as coisas escritas, ainda que sejam jogadas em letras tortas sob a neblina da madrugada, não importa.
Te pertenço na minha única liberdade. Não há de ser preso o amor que já nem cabe em mim. Não há de ser apenas meu o amor que é nosso. Há de ser, apenas.
Centenas de motivos me ocorrem e somem e me ocorrem repetidamente. Há de ser repetido em você o amor traduzido em mim.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Entre eles

por Keissy Carvelli


- Porra, abre essa porta.
- Vai embora!
- Eu não vou a lugar nenhum, caralho!
- Agora você me diz isso? Só agora?


Ele respirou fundo como há dias não fazia. Em meses assim, com uma paixão assim ficava difícil deixar o ar entrar ou sair por completo.
Ela pode ouvir a respiração pesada e imaginou as rugas que se formavam na testa dele sem fechar os olhos, sem deixar de derrubar algumas lágrimas. Bateu de leve os punhos fechados na porta para, depois, ir caindo lentamente até repousar sobre o chão, de joelhos encostados contra o peito como via nos filmes. Imaginou que sentar assim, tão junto à porta, ao lado das palavras grosserias dele, com os joelhos apertados pelos braços curtos amenizaria alguma dor. Os filmes mentem, constatou.

- Você é tão ridículo nesse seu amor de merda, nessas tuas não palavras de merda!

Ele suspirou tomando fôlego para alguma resposta; colocou as mãos no bolso da calça quase larga, suja do dia inteiro e não disse palavra alguma, nem ao menos uma sílaba, nem expressão, nem palavrão.

- É esse seu silêncio imbecil que me entorpece de raiva. Vai, diz alguma coisa! Estúpido! Só duas frases com duas grosserias e acha que é o suficiente? Imbecil. Vai embora, saia por aí, saia de mim.


Ele ouvia o choro atropelando a voz dela e logo no ponto final virou as costas, sem suspiro nem fôlego e saiu.
Ela esperou ainda a beira da porta abraçando os joelhos sem secar as tantas lágrimas que caíam. Respirou fundo, mas não sentiu a respiração dele do outro lado. Levantou apoiando as mãos no chão; encostou mais uma vez os pulsos cerrados cor força na porta e ouviu mais um silêncio. Abriu a porta, como nos filmes, para encontrá-lo em choro também de punhos cerrados na porta. Imaginou que ao abrir a porta o silêncio seria rompido, ainda que com as grosserias dele. Os filmes mentem, constatou.



sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Idade média

por Keissy Carvelli


É estranha a sensação de sentir o tempo passar. Olhar as folhinhas caindo mentalmente não é tão constrangedor quanto ver o seu recente presente tornando-se um remoto passado, e então quase um pretérito passado.
Eu não estou lamentando qualquer ruga que possa ter surgido no meu rosto, essa preocupação ainda não é minha, e talvez nunca seja. Os cremes para os vinte, trinta anos estão aí e eu saberia conviver bem com a presença oleosa deles no armário do meu banheiro. São os momentos, as manias, os hábitos, os gostos.
Num desses domingos de calor não hesitei em gastar os poucos reais que me restavam num bar quase no centro da cidade. Quando você vive no sul do Brasil você passa a entender a virilidade do calor, você espera pelo calor como uma criança pelo Natal.
Foi num domingo de calor, então, como eu dizia. Alguns poucos cigarros, um bar não tão típico, com um aspecto de boteco, mas ainda bar, com cervejas valendo não como boteco. Bar. Música brasileira, copos ora cheios, ora vazios, algum samba no pé, voz já meio rouca de acompanhar a banda. Era Música Popular Brasileira, Maria Rita, Cazuza, Lobão, Tim Maia. Qualquer um na minha idade, ou com mais idade, pode entender.
Lá pelas tantas cervejas a cantora numa espécie de a capella deixa soar uma dessas canções da infância e que você, pura e simplesmente, leva pela adolescência, juventude e assim vai. Não que você tenha escutado dias a fio, cantado sob o chuveiro de olhos fechados. Você apenas conhece cada rima, cada verso como conhece as notas musicais sem nunca ter feito aula alguma. Você sabe. E eu sabia.
Prefiro omitir o título da canção. Não soa bem espalhar por aí certas músicas de toda uma vida. A cantora então deixou soar as primeiras palavras e me deixei acompanhar, como qualquer um na minha idade, ou mais, faria. Fui cantando, cantando como se a música fizesse parte de mim. De fato fazia.
Eu já soltava o diafragma no refrão quando observei uma amiga já de copo vazio me observando com um olhar de espanto, não um espanto horrorizado, um espanto, apenas. Não entendia em absoluto como eu, vestida de calça justa, tênis e t-shirt, como costumam dizer hoje, podia saber toda a letra daquela canção tão desconhecida.
Achei graça, afinei um pouco mais a voz, tomei ar e voltei para a repetição do refrão ainda com mais vontade. A menina de pouco menos de dezoito anos riu, ainda sem entender. Talvez continue não entendo, ou nem lembre mais passados tantos dias e tantos copos de cerveja. Não entendia como eu, vestida quase como ela, poderia saber uma música cuja existência ela desconhecia.
A música da infância, da adolescência e da vida inteira foi cantada por todos com vinte ou trinta anos. A menina de pouco menos de dezoito anos mal sabia que com seu espanto deixou a marca do tempo passando sob meus olhos, ainda sem rugas, que fique claro.


segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Diálogo interno

por Keissy Carvelli

Promessas, minha promessa.
Não conheço o pra sempre do universo,
nem o meu, nem o seu.
Prometo, meu amor, o amor.
O amor presente, o amor intenso, o meu amor.
Todo ele.