quarta-feira, 11 de março de 2009

Estante vazia

por Keissy Carvelli


Eu vou tirar as tuas fotos da parede da minha casa pra não ver tuas digitais presas por onde quer que eu passe. Eu vou rasgar meus livros e deixar vazia a estante pros teus detalhes não perturbarem meu sono quase indecente de menina que dorme, mas não sonha. Eu vou esconder as cartas escritas e não mandadas; os discos eu vou riscar pra não te ouvir a cada letra; as frases e sonetos eu vou transformar em samba, choro e não assinar pro teu nome não ser descoberto pelo meu.

Eu vou guardar o violão e tocar uma gaita. Vou me desfazer dos teus presentes, vou desprezar Beatles e Sentimental. Café eu não tomo mais, cigarro eu fumo assistindo televisão; filmes eu não vejo para não concordar com a sua opinião.

A tua blusa eu uso pra te imaginar sem ela; os teus traços eu desenho ao acordar e o telefone eu já não espero tocar. O teu perfume eu ainda sinto por perto, a tua risada eu ouço no meu ouvido, o teu número eu ainda sei sem procurar.

Eu vou perder as músicas e escrever um livro. Teu nome eu posso esconder, te invento um outro qualquer, te deixo indefinida, quem sabe. Vou lançar de bom humor, sarcasmo e autodestruição. Eu sei que não gosta. Vou criar um outro final. Não! O final será o mesmo trecho do início. Assim. Eu vou te escrever um livro e você nunca vai saber.

A faculdade eu vou largar, mudar, sei lá. Vou te encontrar por acaso e fingir não te reconhecer. Vou te convidar para um café e pedir uma cerveja. Vou perguntar da sua vida e não contar absolutamente nada sobre a minha; vou estampar nos olhos nostalgias baratas sem você notar. Vou ser um clichê e parecer o contrário.

Eu vou rasgar meus livros e deixar vazia a estante pros teus detalhes não invadirem os meus dias inteiros. Eu vou fingir não sentir a sua falta.

4 comentários:

Tatiana Lazzarotto disse...

E se eu disser q esse texto é fantástico e q vc escreve pra caralho, ainda assim esse comentário não estará à altura.

Juliana disse...

e se eu te falar que eu concordo, que você deveria escrever um livro.

Quantas palavras bonitas moça!

M disse...

"Esquecer faz parte da memória", mas às vezes é tão difícil...

Ilana Stivelberg disse...

uma coisa meio o brilho eterno de uma mente sem lembranças né, clementine? muito bom. :)