sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Idade média

por Keissy Carvelli


É estranha a sensação de sentir o tempo passar. Olhar as folhinhas caindo mentalmente não é tão constrangedor quanto ver o seu recente presente tornando-se um remoto passado, e então quase um pretérito passado.
Eu não estou lamentando qualquer ruga que possa ter surgido no meu rosto, essa preocupação ainda não é minha, e talvez nunca seja. Os cremes para os vinte, trinta anos estão aí e eu saberia conviver bem com a presença oleosa deles no armário do meu banheiro. São os momentos, as manias, os hábitos, os gostos.
Num desses domingos de calor não hesitei em gastar os poucos reais que me restavam num bar quase no centro da cidade. Quando você vive no sul do Brasil você passa a entender a virilidade do calor, você espera pelo calor como uma criança pelo Natal.
Foi num domingo de calor, então, como eu dizia. Alguns poucos cigarros, um bar não tão típico, com um aspecto de boteco, mas ainda bar, com cervejas valendo não como boteco. Bar. Música brasileira, copos ora cheios, ora vazios, algum samba no pé, voz já meio rouca de acompanhar a banda. Era Música Popular Brasileira, Maria Rita, Cazuza, Lobão, Tim Maia. Qualquer um na minha idade, ou com mais idade, pode entender.
Lá pelas tantas cervejas a cantora numa espécie de a capella deixa soar uma dessas canções da infância e que você, pura e simplesmente, leva pela adolescência, juventude e assim vai. Não que você tenha escutado dias a fio, cantado sob o chuveiro de olhos fechados. Você apenas conhece cada rima, cada verso como conhece as notas musicais sem nunca ter feito aula alguma. Você sabe. E eu sabia.
Prefiro omitir o título da canção. Não soa bem espalhar por aí certas músicas de toda uma vida. A cantora então deixou soar as primeiras palavras e me deixei acompanhar, como qualquer um na minha idade, ou mais, faria. Fui cantando, cantando como se a música fizesse parte de mim. De fato fazia.
Eu já soltava o diafragma no refrão quando observei uma amiga já de copo vazio me observando com um olhar de espanto, não um espanto horrorizado, um espanto, apenas. Não entendia em absoluto como eu, vestida de calça justa, tênis e t-shirt, como costumam dizer hoje, podia saber toda a letra daquela canção tão desconhecida.
Achei graça, afinei um pouco mais a voz, tomei ar e voltei para a repetição do refrão ainda com mais vontade. A menina de pouco menos de dezoito anos riu, ainda sem entender. Talvez continue não entendo, ou nem lembre mais passados tantos dias e tantos copos de cerveja. Não entendia como eu, vestida quase como ela, poderia saber uma música cuja existência ela desconhecia.
A música da infância, da adolescência e da vida inteira foi cantada por todos com vinte ou trinta anos. A menina de pouco menos de dezoito anos mal sabia que com seu espanto deixou a marca do tempo passando sob meus olhos, ainda sem rugas, que fique claro.


2 comentários:

Carolina Bataier disse...

Ai, acho que me identifiquei tanto com esse texto...

Esses dias eu estava cantando a múscia dos muppets (o desenho, lembra?) e minha irmã me olhou com a msm cara da sua amiga. Meu chão sumiu qdo dei conta que existem pessoas q nunca sequer ouviram falar nos muppets.

Marina... disse...

Ótimo Keissy!